A ciência por trás do bocejo contagioso: entenda o fenômeno

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Créditos: Imagem/Divulgação

O bocejo, caracterizado pelo gesto de abrir bem a boca para inspirar e expirar rapidamente, é um dos rituais mais antigos e ubíquos no reino animal. Observado em uma vasta gama de espécies com coluna vertebral, incluindo cães, gatos, aves, crocodilos, tartarugas e até mesmo peixes, este fenômeno não se restringe apenas a uma função fisiológica. Em humanos, o bocejo não é somente desencadeado pela observação de outro indivíduo bocejando, mas também pela simples leitura ou pensamento sobre ele, evidenciando seu notável poder de contágio.

A etimologia da palavra “bocejar” remonta ao latim oscitāre, que significa “abrir a boca”. Uma vez iniciado, o bocejo segue um curso quase inevitável, semelhante a um espirro. No desenvolvimento humano, o bocejo espontâneo surge ainda no terceiro trimestre de gestação, persistindo após o nascimento. Contudo, o bocejo por contágio, um tipo distinto, se desenvolve mais tarde na vida. Curiosamente, crianças com menos de aproximadamente cinco anos não são suscetíveis ao contágio, e a capacidade de ser influenciado por ouvir ou ler sobre bocejos só se manifesta após os seis anos, um período que coincide com o amadurecimento da empatia e da cognição social.

A neurociência aponta que os bocejos estão intrinsecamente ligados à empatia, a capacidade de compreender sentimentos e emoções alheias, e à cognição social, que permite inferir pensamentos e intenções. Essa conexão é fundamental para a sincronização do comportamento em grupos. Acredita-se que o bocejo tenha chegado aos dias atuais por comunicar uma mensagem quase universal sem a necessidade de palavras, servindo como um alerta sobre estados desagradáveis como sonolência, tédio, fome e estresse. Funciona como um aviso para facilitar a sobrevivência, onde a observação de um bocejo ativa um sinal automático de vigilância, melhorando a preparação coletiva contra ameaças externas.

Embora outras explicações para os bocejos, como o resfriamento cerebral, o reequilíbrio de gases pulmonares ou a equalização da pressão auditiva, tenham sido propostas, a comunidade científica ainda não chegou a um consenso sobre elas. Devido ao seu inegável efeito contagioso, o comportamento do bocejo não pode ser explicado exclusivamente por funções fisiológicas, o que solidifica a hipótese comunicativa como a mais aceita. A suscetibilidade ao contágio do bocejo é alterada em pessoas com transtornos que afetam a empatia e a cognição social, como autismo e esquizofrenia, enquanto indivíduos mais empáticos demonstram maior predisposição. Isso sugere que o contágio depende de boas habilidades sociais, nas quais os neurônios-espelho desempenham um papel crucial ao serem ativados pela observação de ações alheias.

Em suma, o bocejo é mais do que um reflexo; é uma forma ancestral de comunicação não verbal, uma maneira de transmitir a mensagem implícita de “fique alerta, pois eu não consigo agora” ao restante do grupo. Sua vasta presença em diversas espécies corrobora a antiguidade desse ritual. Inclusive, foi observado que o bocejo pode ser contagioso entre diferentes espécies, reforçando a ideia de que a empatia transcende as barreiras de espécie, indicando que o ser humano nunca deixou de ser parte do reino animal. Esses insights foram apresentados por Jorge Romero-Castillo, professor de Psicobiologia e pesquisador em Neurociência Cognitiva da Universidad de Málaga.

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