Adolpho Veloso detalha campanha atípica por Oscar e compara a disputa política

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O diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso, paulistano de 36 anos radicado em Lisboa, está em plena campanha para o Oscar, onde concorre com o filme “Sonhos de Trem”, da Netflix, dirigido por Clint Bentley. Em uma entrevista concedida à BBC News Brasil em Londres, na última semana anterior à publicação da reportagem original, Veloso descreveu a experiência como ir à própria festa de aniversário sem conhecer os convidados, em um esforço que ele compara a uma disputa política. A votação para a premiação estava em curso no período da entrevista, com a cerimônia marcada para 15 de março em Los Angeles, Califórnia.A jornada de Veloso em busca da estatueta dourada segue um percurso semelhante ao de outros brasileiros como Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, que já trilharam caminhos parecidos em campanhas anteriores. Esta é a coroação dos primeiros passos de sua carreira internacional, iniciada há cerca de cinco anos, após décadas de experiência na indústria audiovisual brasileira com publicidade, videoclipes e curtas-metragens. “Sonhos de Trem” é um longa-metragem que acompanha um lenhador e operário no oeste dos Estados Unidos, entre o fim do século 19 e meados do século 20, destacando a construção do país. A crítica especializada aponta a fotografia como um dos principais méritos da produção, pela forma como funde os dramas do protagonista com a constante transformação do cenário.Para Adolpho Veloso, a campanha pelo Oscar é um “trabalho de campo, muito mais difícil do que filmar”, que exige entrevistas diárias em diferentes idiomas e países, além de uma série de almoços, jantares e sessões de perguntas e respostas após exibições do filme, geralmente para membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Ele brinca com a intensidade do processo: “A única coisa que eu não faço e político faz é comer pastel e abraçar criança, porque o resto estou fazendo tudo.” Apesar do esforço, o diretor de fotografia avalia que suas chances de vitória são pequenas, dada a forte concorrência. Ele disputa a categoria com filmes de grande orçamento como “Pecadores”, estrelado por Michael B. Jordan; “Uma Batalha Após a Outra”, de Leonardo DiCaprio; “Marty Supreme”, que pode premiar Timothée Chalamet; e “Frankenstein”, trabalho de Guillermo Del Toro com Jacob Elordi. Veloso afirma que seus concorrentes tiveram “no mínimo dez vezes mais orçamento” do que “Sonhos de Trem”, que custou US$ 8 milhões.A principal favorita na categoria, segundo Veloso, é Autumn Durald, de “Pecadores”, cuja vitória seria “histórica” por ser a primeira mulher a ganhar um Oscar de fotografia e também a primeira a fotografar um filme em IMAX. Mesmo com a concorrência acirrada, o fotógrafo mantém a esperança, impulsionado pela lógica de que, se “não fizesse nada, teria 0% de chance; se fizesse tudo o que me pedissem, teria 5%”. Ele destaca a natureza orgânica da fotografia de “Sonhos de Trem”, que utilizou predominantemente luz natural e evitou intervenções de pós-produção, ao contrário dos métodos de seus concorrentes que dependem mais de equipamentos e efeitos. Essa abordagem, que ele aprendeu no Brasil com orçamentos menores, busca dar maior liberdade aos atores e autenticidade ao cenário.Em relação ao cenário mais amplo do cinema brasileiro, Adolpho Veloso expressa torcida pelas indicações nacionais, embora reconheça as dificuldades. Ele credita o bom momento da produção brasileira e o recorde de indicações a fatores como a “força do Brasil como um todo” e o “barulho do brasileiro” nas redes sociais, que, segundo ele, têm chamado a atenção internacional para o país e suas produções. O fotógrafo acredita que o sucesso de filmes e profissionais brasileiros no exterior inspira novas gerações e pode atrair investimentos, destacando a importância de incentivar a cultura. Para ele, o caminho é fazer mais, mostrar mais e dar mais oportunidades, para que o cinema seja um espaço de vozes mais diversas. Apesar de “Sonhos de Trem” concorrer com “O Agente Secreto”, de seu país natal, Veloso declara que torceria pelos dois filmes, mas mantém o otimismo com cautela, sem preparar discurso, para evitar o que ele chama de “zica”

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