O Sofia Coppola Short Film Award, premiação criada pela Decentralized Pictures (DCP), busca descobrir e impulsionar novos cineastas. Os projetos de curta-metragem inscritos por diretores emergentes passaram por um processo de seleção que avaliou aspectos como roteiro, proposta visual e estratégia de direção, entre mais de 2.300 inscrições. Com 230 mil votos da comunidade da plataforma, Foundation conquistou o 3º lugar na votação popular entre os 25 finalistas e recebeu o prêmio Standout.
Diante do número de propostas que se destacaram, Sofia Coppola decidiu oferecer um reconhecimento adicional a alguns cineastas e às vozes autorais singulares por trás de seus trabalhos; assim, criou a seleção Standout para quatro filmes. Esse apreço por parte da célebre cineasta estabelece uma distinção especial concedida a trabalhos que, segundo a comunicação oficial da Decentralized Pictures, “surpreenderam, encantaram e permaneceram com Sofia Coppola ao longo do processo de seleção”. Essa projeção internacional, tanto para o Foundation quanto para suas criadoras, abre novas possibilidades para a realização do curta-metragem e para a busca por financiamento.
ParaIsabela Costa, coautora ao lado de Anna Dória, ver projetos nacionais entre os finalistas, por si só, já foi algo que acalentou seu coração, além de celebrar a potência do nosso cinema. “Mais do que ver projetos brasileiros entre os finalistas, é significativo perceber como eles carregam nuances e particularidades culturais do nosso país. Em Foundation, o futebol aparece como pano de fundo da narrativa de Luísa. O ambiente de euforia e festividade também revela uma forte presença masculina nos espaços públicos, que atravessa a experiência das mulheres. Embora o filme não seja sobre isso, essa camada cultural está presente e informa o universo em que a história acontece. Além disso, existe um grande potencial cinematográfico no contraste entre a tristeza individual da protagonista e a felicidade coletiva que a cerca”, revela.
Anna também destaca que o trabalho da dupla é radicalmente comprometido com o olhar feminino e seu mundo interior, que está longe de uma interpretação cartesiana. “Luísa vive entre a projeção e a realidade de quem são Suzana e Marcelo, sua irmã mais velha e seu professor de redação. A subjetividade feminina, sobretudo na adolescência, frequentemente se equilibra entre o imaginado e o concreto, já que a identidade ainda está em formação. Observo essas contradições também na poesia, uma linguagem que parte muito da intuição e de desejos emaranhados, sem necessariamente buscar um ponto final. Assim, Foundation é um roteiro muito lírico, que incorpora espaços vazios, sem impor uma função ou um significado a eles”, analisa.
Outro fator que surpreendeu as autoras foi o 3º lugar na votação popular, que, segundo as artistas, abalou uma mitologia que haviam construído em torno de si mesmas: a de que estavam destinadas a ser ligeiramente incompreendidas.
No caso de Isabela, essa percepção vem de uma trajetória no cinema experimental, muitas vezes associado a uma linguagem de nicho e pouco acessível. Já no trabalho de Anna, essa investigação parte sobretudo da poesia e de uma relação com a criação que foge da dinâmica de causa e efeito tão característica da narrativa clássica, propondo, em seu lugar, uma compreensão mais circular e interna. No entanto, a conquista de Foundation demonstra que há, sim, um público amplo e interessado em narrativas que incorporam experimentações visuais e formais.
A seleção dos projetos
Durante o processo de seleção, os votantes atribuíram notas a aspectos como voz autoral, qualidade visual e originalidade. Reviews por escrito também fizeram parte desta etapa. Essas avaliações foram submetidas e ponderadas pelo sistema de votação da plataforma, determinando os 25 projetos finalistas. A partir dessa seleção, Sofia Coppola e o conselho da Decentralized Pictures fizeram a escolha final.
No entanto, a premiação foi ampliada, frente à qualidade dos trabalhos que chegaram como finalistas. Para além do prêmio principal, concederam duas Menções Honrosas e quatro Standouts, aos projetos que se destacaram.
Além de Foundation, outros três projetos brasileiros ficaram entre os 25 finalistas do Sofia Coppola Short Film Award: The Melt, de Hugo Haddad, Ainda É Tempo, de Mafe Mendes (Maria Fernanda Mendes da Silva)e Olgueta de Nina Pieve. Durante a transmissão em que anunciou os finalistas, Foundation foi revelado também como um dos projetos da categoria Standouts da Decentralized Pictures (DCP), ao lado de I Scare Myself, de Julia Ling Kelleher, Jungle Fever, de Salma Rabia Arif, e Babyteeth, de Sadie Schoenberger e Phoebe Evans.
O prêmio principal foi concedido a Strange Young Girls, de Adriane Neshoda, que recebe US$ 20 mil para a produção do curta-metragem, além de mentoria, apoio nas áreas de publicidade e divulgação (P&A) e distribuição da obra concluída pela futura plataforma DCP+. Já The First Snow, de Onyou Hong e Ryan Henry Knight, e Spitfire, de Eva Blackwell-Rogelj, receberam Menção Honrosa e apoio financeiro de US$ 10 mil cada para a realização de seus filmes.
Sobre Foundation
Foundation, com o título provisório de Princípios Fundamentais em português, acompanha Luísa, uma garota de dezesseis anos, durante dois dias em meio à euforia da Copa do Mundo no Rio de Janeiro. Sua percepção do mundo começa a se deslocar quando reconhece o padrão predatório de Marcelo, seu professor de redação, por quem nutria admiração e confiança. Ao mesmo tempo, Suzana, sua irmã mais velha, retorna ao Brasil depois de anos no exterior. Idealizada por Luísa como uma figura quase mítica, ela precisa ser redescoberta como uma pessoa real.
As duas encontram um espaço íntimo de reconexão, no qual Luísa pode voltar a confiar na própria percepção e Suzana pode acolher aquilo que a irmã ainda está aprendendo a compreender. O filme investiga, assim, os mundos interiores de meninas e mulheres jovens, atravessados por desejo, intuição, vergonha e silêncio, além das relações entre poder, afeto e formação.
Isabela Costa é cineasta e artista visual do Rio de Janeiro, com mestrado em Film/Video pelo California Institute of the Arts (CalArts), onde recebeu a Lillian Disney Scholarship. Sua obra transita entre o cinema experimental e narrativo, explorando questões como alienação, codependência e experiências femininas. Seus filmes já foram exibidos em importantes festivais internacionais, como Melbourne International Film Festival, Aesthetica Short Film Festival e Atlanta Film Festival.
Anna Dória é escritora, cineasta e artista brasileira, mestre em Creative Writing pelo California Institute of the Arts (CalArts) e formada em Cinema pela PUC-Rio. Sua produção transita entre literatura, cinema, performance e crítica cultural, com foco em experiências femininas e latino-americanas e em formas narrativas não convencionais. Seus trabalhos já foram apresentados em festivais e espaços culturais no Brasil, nos Estados Unidos, no México e na Austrália.
As duas mantêm uma parceria artística de longa data e já colaboraram em diferentes projetos audiovisuais. Juntas, codirigiram Enfim, Sós, com apoio da ANCINE e da PUC-Rio, além de colaborarem em obras como Peixe Vivo e Ana & Oto, ambos com direção de Isabela Costa e atuação de Anna Dória. Ana & Oto teve sua estreia mundial no Melbourne International Film Festival, em 2025, enquanto Peixe Vivo foi exibido em exposições coletivas em galerias e integrou festivais na América Latina.

